Começo aqui com um desabafo produzido por uma tristeza enorme. Gostaria muito que isso servisse de alerta para aqueles cuja mente e coração ainda nutrem o desejo de ver o Reino de Deus avançando sobre a terra.

Recentemente eu fui convidado para ouvir um missionário que exerce seu ministério na India há mais de vinte anos.  Sua experiência conta com trabalhos na Africa por muitos anos também.

Confesso a vocês que fui com muita expectativa de ouvir o que Deus vem realizando através desse irmão. Gostaria de não dizer seu nome, nem onde ele trabalha e nem mesmo onde participei desse encontro. Obviamente alguns vão identificar de quem estarei falando. Mas meu foco não é ele.

Durante sua palestra que durou aproximadamente duas horas, o número de casos e experiências compartilhado com os presentes era o suficiente para provocar uma revolução na congregação. Testemunhos fortes, arrebatadores e desafiadores. Tudo recheiado com imagens e cenas de videos que aumentavam nosso conhecimento do que ocorre numa das regiões mais pobres da India.

Entretanto, na medida em que ele ministrava e nos fazia lembrar das palavras de Jesus e dos apóstolos, meu coração começou a se entristecer. Fui sendo tomado por um sentimento de falha, de fracasso e vergonha. Como eu estou tão longe de ser uma opção para este mundo. Como eu não tenho a paixão que movia Jesus e os primeiros discípulos.

Me ví então me perguntando: Sei eu como pregar o evangelho? Por anos, e vergonhosamente digo isso, a minha pregação tem sido elitizada. Tenho escolhido a quem pregar e, confesso pra vergonha minha, não tenho tido sucesso. Alias, hoje em dia é mais fácil fazer proselitismo, ou seja, convencer outros “cristãos” a se aderirem à nossa visão do que ir atrás dos “perdidos” que estão nas ruas e nos becos. Pregar usando as lacunas das falhas doutrinárias dos outros é mais fácil do que pregar para um “eunuco” das estradas da vida.

E assim, meu coração ficou arrebentado ao ver quão simples é a pregação desse irmão e quão grande é o resultado do seu ministério. Diferentemente de muitos de nós que, antes que alguém se converta, primeiro tem que ser catequisado, adequado, convencido, transformado, discipulado, e por fim, batizado. Parece que entre o CRER e o ser  BATIZADO existe um loooonnngo caminho a percorrer. As palavras de Jesus seguem um processo simples: “Ide e fazei discípulos, BATIZANDO… Então, ENSINANDO A GUARDAR”. Mas na prática temos visto o oposto, coisa assim: “IDE, fazei discípulos ENSINANDO A GUARDAR AS COISAS QUE EU TENHO ORDENADO, então, se eles forem aprovados, BATIZEM”.

Ah, em alguns casos, se forem BATIZADOS,  e se por qualquer razão não se adequarem à doutrina, DESCONSIDEREM O BATÍSMO.

Mas voltando ao testemunho do missionário, a tristeza cresceu ainda mais ao ver que depois de um testemunho ou outro, que em outros ambientes arrancariam fortes ALELUIAS,  a congregação estava apática, calada, e sem reação alguma. A ponto de o apresentador pedir que os presentes dessem um Aleluia e aplaudissem a Jesus, mesmo assim, alguns nem se moveram.

Por fim, depois da apresentação, aquele irmão fez um apelo… E não foi para levantar recursos financeiros, mas sim para que se levantassem aqueles que desejariam se envolver na obra missionária, atendendo ao chamado do Senhor.

Incrível foi ver que, num auditório com mais de 80% de jovens,  apenas 3 se levantaram.

Não julgo aqui a motivação dos que não se levantaram, mas pergunto:  Que tipo de evangelho temos pregado? Que tipo de obreiros esse evengelho tem produzido? Nossos jovens estão sendo preparados para estudar, trabalhar, casar, ter filhos… Pra quê? Nossos cultos estão cheios de pregações que fortalecem, enriquecem, amadurecem, etc… Mas prá quê? Nossas congregações estão mais parecedidas com academias de ginástica onde os frequentadores ganham energia, beleza escultural, disciplina corporal, conhecimento e tecnicas de emagrecimento e saúde. Tudo voltado para o indivíduo e seu desenvolvimento.

Mas deixe-me dizer uma coisa: Recebemos poder do Espírito Santo para atender ao IDE de Jesus. Não para FICAR e fazer discípulos.

Esta semana, pra completar minha tristeza, fui procurado por uma senhora, mãe de um jovem na idade de 16 anos que pedia ajuda para seu filho. Alguns jovens para fazer amizade com ele e tentar ajudá-lo com alguns problemas pessoais.

Procurei um líder que me recomendou a outro que me sugeriu alguns, cujos pais me disseram que seus filhos não podiam porque estavam estudando, ou trabalhando ou que não tinham maturidade. Um dos líderes me disse  não ter tempo e morar longe – 35 minutos.

Me lembrei de meu tempo de infância. Ouvi o evangelho com 10 anos de idade e com 11 anos já estava pregando, indo às praças públicas, cadeias e sanatórios. Éramos um grupo de meninos que orava, jejuava, fazia vigílias e todos, sem excessão, são pastores hoje.

O que estamos fazendo com nossos jovens? Nosso evangelho está elitizado.  Há algo errado no meio do arraial…

Como disse no início, é apenas um desabafo, mas é um desabafo que bate de frente comigo mesmo.

Que venha sobre nós o temor da profecia do Senhor a Ezequiel:

““Filho do homem, eu fiz de você uma sentinela para a nação de Israel; por isso, ouça a minha palavra e advirta-os em meu nome. Quando eu disser ao ímpio que é certo que ele morrerá e você não falar para dissuadi-lo de seus caminhos, aquele ímpio morrerá por sua iniquidade, mas eu considerarei você responsável pela morte dele. Entretanto, se você de fato advertir o ímpio para que se desvie dos seus caminhos e ele não se desviar, ele morrerá por sua iniquidade, e você estará livre da sua responsabilidade.”
‭‭Ezequiel‬ ‭33:7-9‬ ‭NVI‬‬
http://bible.com/129/ezk.33.7-9.nvi